Nome da fic: Fotografia. Gênero: LemonEmbriagado- capitulo 2
Naquela Segunda-feira, acordei às 9 da manhã. Abri meus olhos, que eram muito mais azuis do que são hoje em dia, e logo percebi que Seishirou já havia saído. Certamente, perdi o café da manhã. Por baixo do edredom, meu corpo suava em bicas, devido ao calor que pairava no ar da cidade nessa época do ano. Afastei-o, calcei as chinelas e fui direto para o banheiro tomar uma ducha fresca. Vesti uma camiseta arejada verde, calças jeans e tênis. Saí da suíte, tranquei-a e, cuidando para não ser interceptado pela velha da pensão e ter de ouvir reclamações por nada, deixei a casa. Iniciei minha busca por um curso de teatro. Comi uma bobagem qualquer de almoço, peguei incontáveis conduções lotadas e muito rodei aquela cidade-monstro. Passando das 5 horas, finalmente encontrei um curso, muito longe da pensão, e cujo único acesso era uma porta camuflada por cerca viva. As aulas começariam no dia seguinte. Voltei à pensão de Dona Marisa ao anoitecer. Atravessei a sala de estar sendo avaliado pelos olhos da senhora, que se encontrava sentada num dos sofás. Segui para o quarto; girei a chave e adentrei meu bendito canto de sossego, depois de um dia barulhento. Seishirou estava sentado em sua cama, com as costas apoiadas na cabeceira, lendo um livro que meus olhos não conseguiram identificar. Joguei-me na minha cama, e soltei um gemido de cansaço. O rapaz, que estava bem vestido, sorriu, fechou o livro, descansou-o em cima do criado-mudo, retirou os óculos dos olhos, e falou calmamente: - Estava esperando por você. – Sua voz suave e sólida ao mesmo tempo ecoava no quarto, e provocava calafrios nos meus pêlos. – Como foi a batalha? - Bom... – Falei em meia voz. – Foi difícil, mas encontrei um curso, e estou matriculado. – Forcei um sorriso fraco, para transmitir a alegria que eu sentiria naquele momento, se não estivesse cansado daquela forma. - Fico feliz por você. – Seishirou disse, enquanto abria um sorriso de orelha a orelha. – Como eu disse ontem, a comida daqui é horrível, então...Estava pensando em ir com você a um bar. Sabe? Comer alguma coisa, beber um pouco para relaxar. O que acha? Tive de lutar para maquiar a felicidade que senti ao ouvir um convite da boca de Seishirou . Um encontro, talvez? Não, não, ele chamará amigos. Não se anime assim, Yoru. - Chamou amigos? – A pergunta veio como um vômito de palavras. - Não, só você. – Seishirou , como de habitual, sorriu. Apoiou-se nas pernas, e levantou. – Vamos? Levantei em um salto. Eu finalmente conheceria Seishirou . Seu passado, sua vida, suas intenções, seus pensamentos. Nós saímos do quarto, Seishirou trancou a porta com sua chave. Avisei à Dona Marisa que não jantaríamos na pensão, e ela respondeu com um rosnado de cão bravo. Finalmente estávamos na rua. Juntos. - É bem perto daqui. – Seishirou explicava, apontando o dedo indicador para o horizonte. – Só duas quadras. Meu cansaço havia surpreendentemente desaparecido por completo. A excitação de estar ao lado de Seishirou havia levado para longe a letargia que eu sentia poucos minutos antes. Ele estava vestido com uma camiseta azul com golas, uma calça preta e tênis de passeio. Apressando um pouco o passo para pôr-me ao lado do rapaz, pude sentir o perfume masculino que seu corpo, meu objeto de desejo, exalava. - As pessoas são frias nessa cidade. – Ele puxou assunto, depois de alguns passos em silêncio. – Não falam, não ajudam, não sorriem. Foi um impacto para mim quando eu cheguei aqui. Principalmente aquelas pessoas da pensão, nunca abrem a boca. Respondi com um sorriso singelo. Não sabia o porquê do sorriso, mas sorria. O céu estava repleto de estrelas como um candelabro no teto de um salão, e a noite estava quente. Os quintais das casas eram cobertos de grama aveludada e muito verde, havia muito movimento nas ruas, e um ar de regozijo. Após as duas quadras, viramos à esquerda e chegamos num bar/restaurante muito bonito, embora fosse simples. Havia uma mulher, dona de um vozeirão, cantando blues, sentada num banquinho ao palco, o que me chamou a atenção. O local estava brandamente movimentado. - Qual mesa você prefere? – Perguntou Seishirou , em meio de várias mesas desocupadas. - A mais próxima à janela. – Respondi, já sentando à mesa. Seishirou esquivou-se das outras cadeiras, e sentou-se na minha frente. Um garçom veio atender-nos, e meu companheiro de quarto pediu duas cervejas, antes que eu pudesse abrir a boca. - Quer comer alguma coisa? – Seishirou perguntou, antes de finalizar o pedido. - Não, agora não. – Respondi, e o garçom retirou-se. Alguns instantes depois, o atendente voltou com duas garrafas de cerveja já abertas e dois copos. Deixou-as em cima de nossa mesa, e partiu novamente. Seishirou encheu seu copo com o líquido amarelo, e fez o mesmo com meu copo. - Então, Yoru. – Seishirou vociferou, e ingeriu um gole de cerveja. – Conte-me sua vida melhor. Onde nasceu, onde mora, o que quer? - Sou de Florianópolis. Meu pai é advogado, minha mãe é professora de matemática. – Bebi dois longos goles de cerveja. – Fiz faculdade particular de Artes Cênicas. Não arrumei nenhum emprego depois da faculdade, e quero me aperfeiçoar aqui em Kyoto. E só. – Mais um gole. – E você? - Bom, eu nasci e moro em Belo Horizonte. Meu pai é da Aeronáutica, minha mãe é apenas a esposa do meu pai, porque o orgulho dele não a deixa trabalhar. Eu não fiz faculdade, mas fotografo para eventos, como casamentos, batismos, etc. – Seishirou explicou, e abriu um sorriso ao me ver concentrado. – Não foi fácil para convencer meu pai de que eu queria mesmo seguir carreira de fotógrafo. - É, eu imagino. Foi assim comigo também. Eles falam que não dá dinheiro, é arriscado, não é profissão de verdade... – Bebi mais cerveja, e girei os olhos em reprovação. – Mas eu consegui o apoio do meu pai depois de um tempo, só minha mãe que ainda é intolerante. - Namoradas? – Seishirou questionou. - Bem... – Comecei, desgrudando os lábios do copo gelado. – Não tive muitas. Alguns casos, poucos sérios. - Eu nunca fiz muito sucesso com as mulheres. – Seishirou falou entre risos e um gole de cerveja. – Mas eu gosto de permanecer solteiro, é uma opção minha. A conversa estendeu-se por várias horas. Ríamos muito. Foram duas, quatro, seis, oito...Perdemos as contas de quantas garrafas. Seishirou não se alterava, por mais que bebesse. Já eu, que não bebia com freqüência, e por teimosia não quis comer nada antes, fiquei muito zonzo e mudado. Quando estávamos fundo na conversa, Seishirou percebeu meu estado. - Yoru! Acho que te embebedei! Vamos embora, antes que você passe mal. – Seishirou chamou à mesa o garçom, que fechou a conta. - Eu pago minha parte. – Falei, ou ao menos tentei dizer, visto que minha fala estava pastosa e enrolada. - Não, Yoru. – Seishirou disse com avidez, e largou na mesa várias cédulas, que certamente cobririam todos os gastos. O garçom agradeceu e foi-se embora. Seishirou levantou. – Vamos, parceiro. Afastei a cadeira e levantei-me. Na mesma hora, minhas pernas titubearam e quase me deitaram ao chão. Seishirou , por sorte (e para meu deleito), envolveu-me nos seus fortes braços e me pegou no colo. - Fica calmo, eu te levo. – O rapaz sorriu, e saiu do bar. Já era muito tarde. Seishirou carregou-me nos braços por todo o caminho; eu com o rosto quase no seu pescoço, sentindo seu intenso aroma masculino. A pensão estava escura e silenciosa. Seishirou chegou no quarto e deitou-me na minha cama. A partir daí, não consegui ver mais nada, apenas senti grandes mãos me despindo, e um edredom cobrir-me até o pescoço. - Boa noite, Yoru...