Fotografia.



    

O fotógrafo- capitulo 1

Sob aquele Sol de meio-dia, eu arrastava um malão pela calçada naquele Domingo. Trajava uma camiseta azul, jeans surrado e tênis antigos. A previsão de desembarque do ônibus interestadual vindo de Florianópolis era às 9 da manhã, mas ocorreu um atraso de duas horas. Logo comecei minha busca por uma pensão. Eu era apenas mais um no mar de pessoas, apenas mais um. Após percorrer uns dez quarteirões, finalmente achei uma pequena placa pendurada num muro. \"Pensão com refeições\". Rapidamente bati à porta de vidro da casa. Eu realmente não sabia onde estava. Uma mulher gorda e rosada atendeu-me. Fitou-me da cabeça aos pés, o que me deixou levemente constrangido. Seus olhos deslizaram na direção do malão, e a senhora entendeu o que eu desejava. - Entre. – A velha disse, seca e rispidamente, dando-me passagem. Apanhei o malão e adentrei a casa. Uma grande sala de estar imponentemente recebia as visitas. Em tudo havia rendas e babados. A mulher pediu que eu a acompanhasse, e levou-me até o corredor. Havia cinco quartos. A senhora destrancou a porta de um deles, e deu-me a chave. - Não perca essa chave. Você perdeu o almoço. São seiscentos yenes . – Foram as suas últimas palavras antes de ir embora. O quarto não era grande. Entretanto, era muito ajeitado. Havia duas camas de solteiro, dois criados-mudos, uma televisão, um guarda-roupa e um pequeno banheiro. Uma grande mala preta encontrava-se em cima de uma das camas, como uma espécie de certificado de posse. Eu tinha um companheiro de quarto. Larguei o malão aos pés da cama desocupada e logo tirei minha camiseta e joguei-a sobre a cama. Era um Domingo muito quente. Logo despi o resto das roupas que ainda cobriam meu corpo, e entrei no box do chuveiro para uma ducha fria. Vesti a mesma camiseta e uma bermuda curta. Procurar por um curso de teatro em um Domingo seria em vão. Então, resolvi dormir um pouco. Desde muito pequeno, sempre sonhava em ser ator. Tanto que fiz faculdade de Artes Cênicas. Porém, quando avisei à minha mãe que passaria um tempo em Kyoto, ela entrou em estado de choque e duramente reprovou a idéia. Mesmo assim, com a ajuda do meu pai, tanto financeira quanto em relação à minha mãe, consegui viajar e realizar meu desejo. Ao fim de tarde, acordei com barulhos vindos da porta. Um ruído de chave girando e um estalido anunciaram a chegada do meu companheiro de quarto. Logo que entrou, virou-se de costas para trancar a porta novamente, impedindo-me de ver seu rosto de imediato. Deu duas voltas com a chave e sua face tornou-se visível. Era um rapaz alto e forte, de ombros largos. Seus cabelos lisos eram devidamente aparados, e seus olhos amendoados eram profundos. Seus lábios eram grossos e avermelhados. Trajava uma camisa branca com o primeiro botão aberto, uma calça preta larga, Havaianas e, curiosamente, uma câmera em volta do pescoço. Era um fotógrafo. A visão do rapaz estimulou-me a abrir os olhos por completo. Sem dúvida, era um homem muito bonito. Ele tirou a câmera do pescoço, descansou-a em cima do criado-mudo e começou a desabotoar a camisa. Revelou-se, então, um corpo torneado e musculoso. Como se houvesse reparado que eu o observava bobo, parou o que fazia e estendeu a mão. - Seishirou Kudou. – O lindo rapaz vociferou, exibindo sua voz grave e atraente. O vento circulando graças ao ventilador de teto fazia com que sua camisa abanar inquieta, pondo em exposição seu abdome que me seduzia. Apertei sua mão, e ele abriu um largo sorriso. - Yoru Katsuro. – Respondi, esforçando-me para que minha voz não tremesse. - De onde? – Perguntou o rapaz, abaixando o zíper da calça e arriando-a. - Tokyo. E você? – Devolvi, observando cada movimento do moço. - Hokkaido. O que procura em Kyoto? – Agora, o mancebo vestia-se com uma camiseta sem mangas e uma bermuda até os joelhos. - Curso de teatro. Cheguei hoje. – Respondi, sentando na beira da cama. - Já estou aqui há uma semana. A Dona Marisa não é nada agradável. Velha de poucas palavras, ela. – Seishirou falava, ao deitar-se na cama e ligar a televisão. – O jantar é servido às 8 horas. - Você é fotógrafo, não? – Uma pergunta óbvia para esticar o papo. - Ainda não, mas estou fazendo curso. – O rapaz falava entre um sorriso e outro. – Mas já tiro minhas fotos. É o que eu estava fazendo antes de chegar. - Interessante. Passamos o tempo restante até a hora do jantar em silêncio, apenas assistindo a televisão. Falávamos uma ou outra palavra, mas nada significante. Às 8 e meia, cruzamos o corredor e chegamos à sala de jantar, que contava com uma grande mesa de carvalho. - Vocês demoraram. A comida já está quase fria. – Resmungou Dona Marisa enquanto sentávamos à mesa. No meio da mesa, havia uma enorme panela com macarrão. Servi-me de um pouco, e comecei a comer. Tinha gosto de manteiga pura. Uma mãe e seus três filhos também jantavam conosco. Inclinei-me levemente e disse ao ouvido de Seishirou : - Essas pessoas não falam? - Não. Nunca ouvi nenhuma palavra vinda da boca dessa mulher, ou das crianças. – O moço respondeu no mesmo baixo tom, para que ninguém além de mim pudesse ouvir. Terminamos o jantar e subimos juntos. Não deu muito tempo, e já apagamos a luz para tentarmos pegar no sono. Conversamos mais um pouco no escuro sobre coisas banais da vida, e, pouco antes de minha consciência se desligar, ouvi as seguintes palavras: - É uma pena que eu não soubesse que você viria. Se soubesse, poderíamos ter ido a um bom bar que eu conheço. A comida daqui é péssima...